Defensoria Pública consegue vaga para idoso em situação de rua em Casa de Passagem da Capital

Defensoria Pública consegue vaga para idoso em situação de rua em Casa de Passagem da Capital

30/09/2020 Notícias 0

Ninguém tira algo de alguém que já não tem mais nada. Por muito tempo, Saulo Paixão Teixeira, 63 anos, andou por Florianópolis só com as roupas do corpo, os documentos no bolso e um pedaço de papelão que fazia as vezes de colchão ou cobertor para se deitar ao relento, nas manhãs e tardes frias do inverno, no gramado do canteiro central da Rodovia Gustavo Richard ou em algum banco de praça do Centro, enquanto aguardava o horário de abertura do Albergue Noturno Manoel Galdino Vieira na Avenida Hercílio Luz, onde pessoas em situação de rua só podem entrar e permanecer das 19h às 7h.

No dia 20 de julho, após procurar auxílio da Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina, que atuou junto à Secretaria Municipal de Assistência Social, Saulo conseguiu uma vaga na Casa de Passagem de Florianópolis, onde pode ficar o dia inteiro. Mas, como o nome diz, a Casa de Passagem é um local transitório. O objetivo é conseguir um teto em alguma das ILPIs – Instituições de Longa Permanência para Idosos, como se chamam agora os asilos, que mantêm convênios com a Prefeitura da Capital.

A história de Saulo Paixão Teixeira é semelhante à de muitos brasileiros na mesma situação. Natural de Jandira, em São Paulo, fez de tudo um pouco. Trabalhou como office boy na Beneficência Portuguesa da capital paulista, onde chegou a técnico de análises clínicas. “Mas como precisava trabalhar, deixei os estudos para trás. Fiz só até o 5º ano primário”, diz ele. Foram tempos prósperos, época em que casou e teve dois filhos. Porém, com o término do casamento, ele entrou em depressão e teve uma sucessão de diversos empregos, de vendedor a caminhoneiro. O que durou mais tempo foi o de caseiro em um sítio em Itatiba, onde ficou por cinco anos, até o dono falecer e os filhos venderem a área para um condomínio.

Mudou-se com a mãe para Curitiba, mas, depois que ela faleceu, foi morar com uma irmã em Correia Pinto, no Planalto Serrano, onde trabalhou primeiro como cozinheiro e, depois, vendendo pães, cucas e bolos que suas sobrinhas faziam, de porta em porta. Também vendeu salames e outros embutidos, da mesma maneira, recebidos de um representante comercial, que o levou um tempo para Criciúma, onde Saulo trabalhou numa sorveteria. De volta a Correia Pinto, se desentendeu com o cunhado e foi trabalhar numa granja de aves em Treze Tílias, onde permaneceu por pouco tempo. Sem perspectivas, resolveu vir para Florianópolis para trabalhar na temporada em Canasvieiras.

“Cheguei em outubro do ano passado. Fazia 30 anos que eu não via o mar. Por indicação daquele que me levou para trabalhar em Criciúma, consegui o contato dessa sorveteria em Canasvieiras. A ideia era trabalhar na temporada, mas não deu muito certo. Não tinha licença para vender e tinha medo da fiscalização pegar e eu precisar pagar os picolés. Acabou o dinheiro, fiquei sem nada, deixei as minhas duas malas lá na sorveteria e vim aqui para o Centro, para tentar arrumar alguma coisa. Acabei na rua. A gente nunca espera passar por isso”, conta.

Saulo procurou o auxílio da Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina no final de 2019. No início deste ano, o defensor público Marcel Mangili Laurindo, da 13ª Defensoria Pública da Capital, enviou ofício à Secretaria Municipal de Assistência Social, buscando uma vaga para Saulo em alguma casa de acolhimento. No dia 16 de março, foi declarada a situação de pandemia de Covid-19 em virtude da disseminação do novo coronavírus, e os locais que acolhem pessoas em situação de rua não puderam mais desligar nem receber nenhuma pessoa.

No total, Saulo passou cerca de 150 dias no Albergue Noturno, tendo que deixar o local durante o dia, até que a Defensoria Pública conseguiu, via Secretaria Municipal de Assistência Social, uma vaga na Casa de Passagem localizada na antiga Casa Rosa na Rua General Bitencourt. Antes de entrar no local, ele teve que ficar 14 dias em isolamento em função da pandemia. Saulo é portador de doenças crônicas (hipertensão, depressão, entre outras) e toma diversos medicamentos em função da saúde delicada. Pela idade, está habilitado a conseguir uma vaga em uma ILPI. Em um contato recente com a Assistência Social da Capital, a Defensoria Pública foi informada da existência de cinco vagas no Cantinho dos Idosos, no bairro Ratones, e duas na SERTE, na praia de Cachoeira do Bom Jesus. Saulo está na lista de espera e seu caso foi indicado como prioridade. A 13ª Defensoria Pública avalia a possibilidade de ajuizar uma ação para tentar garantir a Saulo Paixão Teixeira o acolhimento em uma ILPI, mas espera que isso não seja necessário.

Sobre a sua situação atual, Saulo agradeceu à atuação da Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina. “Agradeço ao doutor Marcel, à Bruna (Bessi, estagiária) e à Amanda (Medeiros, analista jurídica da 13ª Defensoria Pública da Capital; ambas atuaram no caso). Estou feliz aqui. Agora posso ficar o dia inteiro, me deram roupas novas, posso olhar televisão, tem internet, e até consegui falar com a minha filha (ele não tem contato com o filho há quatro anos). Mas não consegui dizer que antes estava na rua. Fiquei com vergonha. Ela também não perguntou onde eu estava”, diz ele.